Gramático Bechara defende acordo ortográfico
O acordo ortográfico é um marco histórico nas relações diplomáticas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), defendeu o gramático e lingüista Evanildo Bechara
"A unificação ortográfica é perfeitamente possível e demonstra maturidade política e lingüística", disse à Agência Lusa o membro da Academia Brasileira de Letras, ressaltando a importância da língua portuguesa na unidade transnacional do mundo lusófono.
Bechara afirmou que o Brasil se propõe a unificar a ortografia e implantar as novas regras nos dicionários e livros num prazo de quatro anos. "Em 2012, todo mundo no Brasil estará escrevendo com a nova ortografia", afirmou.
Além de considerar a língua portuguesa um veículo de comunicação capaz de integrar os oito países da CPLP e mais de 230 milhões de falantes, o diretor do Liceu Literário Português destacou a importância do idioma nas relações diplomáticas.
"A língua que abre a janela para o intercâmbio, pois torna as relações de convivência mais próximas e confere uma amplitude global", afirmou.
O diretor do Liceu Literário Português no Rio e também membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa disse que o acordo contribui para ampliar o número de pessoas que queiram aprender a língua portuguesa.
"A idéia não é mais ter que escolher entre aprender a forma lusitana ou a brasileira. O objetivo é abolir as diferenças de acentos e simplificar o uso do hífen, por exemplo. Assim, a língua vai difundir-se mais facilmente e de maneira mais uniforme", declarou Bechara.
"Identidade cultural"
Rosalvo do Valle, especialista em história da língua portuguesa e professor do Liceu Literário Português, defendeu a necessidade de estudar as mudanças lingüísticas e as suas evoluções para que se possa entender o português da atualidade.
"A língua é o principal elemento de comunicação e de identificação das pessoas, um elo muito forte, um objeto histórico e cultural. O plano da lusofonia é importante para afirmar a nossa nacionalidade e identidade cultural através da língua", disse Rosalvo.
Apesar disso, o especialista destacou que não se pode confundir a grafia com a língua, uma vez que o acordo não elimina as variantes regionais com características sociais e culturais de cada falante.
"O acordo não vai alterar a língua em nada, as especificidades de cada povo não vão mudar. Isso é apenas um modo útil e prático de tornar mais simples e de maior alcance a divulgação de livros em português. Estou perfeitamente de acordo", declarou.
Mesmo afirmando desconhecer as conseqüências da aprovação do acordo ortográfico, Rosalvo do Valle defendeu que a unificação poderá tornar o intercâmbio mais amplo no território lusófono.
Histórico
O acordo ortográfico foi assinado em 1990 por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. De acordo com os estatutos da CPLP, o documento entrará em vigor quando três países da comunidade concluírem os trâmites internos para a ratificação do acordo.
Em maio passado, Portugal foi o quarto país a aprovar o segundo protocolo modificativo. Até então, apenas Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe haviam ratificado o acordo e também os protocolos modificativos, o que em tese permitia que o acordo já pudesse estar em vigor desde o ano passado.
Instituições Fundado em 1868, o Liceu Literário Português é uma instituição filantrópica sem fins lucrativos que ministra cursos gratuitos de especialização e também ao nível de pós-graduação para promover a difusão da língua portuguesa.
Na década de 1990, foram criados o Instituto de Língua Portuguesa e o Instituto Luso-Brasileiro de História, também localizados no Rio de Janeiro, com o objetivo de transformar o Liceu num espaço permanente de estudos e pesquisas superiores sobre a língua portuguesa e a sua história.
Escrito por Carlos José Linardi às 13h38
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